O desafio de combater o racismo em sala de aula

Discutir o racismo é uma demanda presente na sociedade. Com atos discriminatórios acontecendo diariamente, é fundamental que todos se envolvam no desafio de combatê-lo.

Preocupado e ciente dessa necessidade, o professor da rede estadual em Porto Alegre e Novo Hamburgo, Ramon Santos, aceitou o desafio de implementar um projeto antirracista numa das escolas onde leciona.

Apesar de entender que essa discussão deva ser feita por todos, especialmente pelas pessoas brancas, que precisam estudar e aprofundar o tema, Ramon topou liderar a discussão, mesmo sendo o único professor negro da instituição. “Topei o desafio, especialmente por essa conjuntura política que estamos vivendo, na qual estamos perdendo o tato da tolerância, do respeito, do entender o outro e do carinho”, ressalta o professor.

Para o educador baiano, que há oito anos mora no Rio Grande do Sul, tem sido bastante desafiador estimular a reflexão sobre os racismos que carregamos e temos internalizados.

Para saber mais sobre o caminho que o professor está trilhando para colaborar com o fim do preconceito, aprecie a entrevista completa aqui:

A educação e o prazer de testemunhar o aprendizado

Foi o prazer de acompanhar o desenvolvimento das crianças que encantou a professora de Santa Rosa (RS), Clarice Teresa da Silva Tomaz, e a fez persistir no magistério. Além da gratificação de testemunhar o aprendizado de seus alunos, celebra o fato de ser uma professora negra em meio a uma maioria branca. “É muito importante que eles tenham essa referência”, entende a educadora que não teve essa oportunidade durante a sua escolarização.

A professora, na conversa realizada para o MudaMundo TamoJunto, comemorou, também o fato de a personagem principal das histórias da série de livros do projeto ser um menino negro. “É muito importante trazer personagens negros e protagonistas, rompendo com as histórias tristes e sofridas, nas quais os negros não aparecem como heróis ou protagonistas”, reforça a educadora.

Ter contato com protagonistas negros, para a professora, é um direito das crianças brancas, também. Ela alerta que, muitas vezes, as crianças reproduzem o preconceito que aprendem em casa por não ter acesso à informação e à diversidade. Para saber mais sobre a trajetória e as ideias de Clarice, acompanhe aqui.

Como qualificar a educação para as relações étnico-raciais?

Apesar de termos legislação que prevê que as culturas afro-brasileira e indígena devem fazer parte dos currículos e do dia a dia das escolas, de forma constante e abrangendo todas as áreas do conhecimento, a realidade que encontramos ainda está longe do cumprimento legal. Temos muito o que avançar.

Para a assessora pedagógica da Secretaria Municipal de Educação de Caxias do Sul (RS), Caroline Caldas Lemons, esse tema vai muito além da questão legal, pois é um pressuposto ético. “Estamos falando de humanidade”, enfatiza a professora licenciada em História e doutora em Educação.

Interessada em entender a desigualdade social desde os tempos de escola, Caroline hoje atua no núcleo QuErer (Qualificar para a Educação Étnico-racial), criado ano passado pela Secretaria de Educação de Caxias do Sul para colaborar com professores e coordenadores pedagógicos na apropriação e no tratamento de forma adequada do tema.

Na conversa completa com Caroline, no MudaMundo TamoJunto, ela compartilha os desafios enfrentados e, com argumentos contundentes, inspira outros professores e coordenadores a se engajarem numa educação que promova a paz, a justiça e a equidade. Confira, em:

A escola e a educação indígenas

A importância da educação escolar e da educação informal indígenas são equivalentes. Ambas têm que ser preservadas e garantidas como direito. A doutoranda em Educação pela UFRGS, advogada e fundadora do Instituto Kaingáng, Susana Kaingáng, relata que, a partir de sua experiência na universidade, a necessidade de refletir e resgatar suas raízes se fortaleceu.

Instigada a partilhar sua cultura ancestral, percebeu o quanto era fundamental valorizar os saberes de sua avó, por exemplo. “Muitas coisas eram tão comuns que eu não questionava, não perguntava. Como eu deixei de perguntar certas coisas para a minha avó…”, reflete a educadora. No Instituto, uma das linhas de atuação é exatamente a valorização dos saberes dos anciãos, que participam ativamente das ações da instituição.

Na conversa com a Susana, além da educação escolar indígena, um dos temas tratados é a relevância do resgate de valores. Os indígenas, influenciados pela cultura não-indígena, também precisam valorizar e retomar seus valores ancestrais – minimizados (ou apagados) pela colonização.
Confira a conversa completa com a educadora aqui:

A arte e a literatura e muito mais em sala de aula

Nana Martins é professora em Florianópolis (SC) e compreende a relevância da sua presença – como pessoa negra – em sala de aula. É uma referência importante para os alunos, que ela só foi ter na Universidade quando cursou Letras.

Foi no curso de Letras, também, que ela conheceu a literatura negra e, a partir daí, além de leitora passou a ser escritora. Ela escreve contos e poesias a partir de suas experiências e de dores de difícil elaboração. Em sala de aula, suas histórias são presentes para apresentar novas perspectivas aos alunos, novos pontos de vista. “Eu uso a literatura como salvação, para explicar minhas dores, meus sentimentos e minha visão de mundo”, confessa.

Para ela, é importante trabalhar diariamente para a educação das relações étnico-raciais. Para isso, promove leituras, interpretações e dramatizações ao longo de todo o ano. Um dos objetivos da professora é desmistificar a ideia de África, que muitas crianças entendem ser um país e não um continente.

Outro tema presente na sala de aula de Nana é o feminismo. “As crianças falam muito sobre isso, e sabem apontar – isso é machismo, por exemplo”, afirma a professora. Todos os temas e conflitos presentes na sociedade devem estar na escola. Mas Nana lembra que a educação para ser efetivamente cidadã tem que ser feita em parceria – escola e comunidade.

Aprecie mais das ideias e da trajetória da professora Nana Martins em:

Educar para transformar

A sala de aula pode mudar o mundo se o exercício da crítica e do questionamento estiverem sempre presentes. Para a professora de Taquara (RS), Priscila Renata Martins, esse é o cerne do trabalho do professor – refletir, repensar e inovar. “A educação serve para transformar.”

Nas práticas em sala de aula, um dos temas que Priscila procura trazer à tona é o das relações de gênero, sobre o qual se dedica à pesquisa e ao estudo. Para ela, é fundamental o professor apropriar-se dessa temática em função da imensa violência de gênero que, infelizmente, vivenciamos no Brasil. A situação da violência contra a mulher, homossexuais e pessoas trans, por exemplo, segundo a professora, precisa ser discutida e apresentada em sala de aula, sempre conectada às relações de poder que nelas estão envolvidas.

Desde muito cedo, a questão de gênero está presente, perceptível em certos pensamentos e comportamentos que podem reiterar a violência e que, muitas vezes, estão naturalizados. Falas como “meninas brincam de bonecas, e meninos de carrinho, ou que meninos são mais agitados e meninas mais calmas” trazem um modo de ver o mundo, que pode reforçar a desigualdade de gênero e a violência.

Se você também quer se apropriar do tema e ajudar a construir um mundo mais equânime, vai gostar de ouvir as ideias da professora Priscila. Confira aqui: